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Saiba mais →Divisões narrativas das parashiot baseadas na obra A Torá: Um Comentário Moderno, de W. Gunther Plaut, gentilmente cedidas pela UJR-AmLat.
Para a psique judaica, as narrativas da Torá não são apenas histórias sobre um passado distante. Elas constituem um campo permanente de interpretação: seus personagens, acontecimentos e imagens continuam sendo relidos à luz de novas perguntas e experiências.
Bereshít, "no princípio", é o nome da primeira parashá. Talvez a pergunta mais importante de Bereshít não seja como o mundo surgiu, mas qual é o nosso lugar nele. O mundo é chamado "muito bom", mas nunca "perfeito". Completá-lo é tarefa nossa, como parceiros de Deus na criação.
A parashá vai de antes da primeira luz até a véspera do dilúvio. Em seis capítulos estão a criação do mundo, o primeiro Shabat, o jardim do Éden (o jardim do deleite), o primeiro assassinato e as dez gerações que ligam Adám a Nóach.
O capítulo é um prólogo em forma de poema em prosa. As frases são curtas e ritmadas, e a repetição vai subindo degrau por degrau até o ser humano. Um só Deus, que cria e diz seis vezes que acha o resultado "bom", como um marceneiro que termina sua peça e diz consigo mesmo "muito bom". Quando chega a vez do ser humano, o ritmo desacelera: "Façamos…". A humanidade é criada betsélem Elohím, à imagem divina, homem e mulher juntos.
O fecho é o sétimo dia. Ele ainda não se chama Shabat, mas já aparece como selo da criação, um tempo sagrado inscrito na própria estrutura do universo: o dia em que o ato de criar cessa.
Em 2:4 o tom muda. Deus agora tem nome próprio, molda o barro, sopra e passeia pelo jardim. A ordem da criação também se inverte: no capítulo 1 os animais vêm antes e o casal é criado junto; no capítulo 2 o homem vem primeiro. A palavra traduzida por costela, tselá, aparece outras vezes na Torá, mas para se referir à lateral do Mishcán, o tabernáculo. Então, talvez, de um dos lados do humano, ser andrógino, Deus criou aquela que dá a vida.
No centro do jardim está a Árvore do Conhecimento. Comer de seus frutos é ganhar discernimento moral e tornar-se uma criatura que escolhe. É passar a discernir entre o bem e o mal, entender o mundo de forma binária. Pode ser também a experiência sexual, a de tornar-se adulto.
Na epopeia de Gilgamésh, narrativa anterior à da Torá, o guerreiro Enkídu corre junto com os animais e não se diferencia deles. Ele se torna diferente depois de deitar-se com uma prostituta. Ao fim das noites com ela, passa a ter compreensão e não consegue mais correr ao lado dos animais.
O feminino traz entendimento ao masculino quando conhecido. Adám e Chavá foram "condenados a ser humanos". Quem escolhe o conhecimento perde a Árvore da Vida, e a mortalidade passa a fazer parte da condição humana. A saída que resta é gerar a próxima geração.
No Éden a escolha era entre a vida e a morte. Fora dele, passa a ser entre o bem e o mal, e o primeiro filho da humanidade escolhe o assassinato. De um lado, a oferta de Hével, a fumaça gorda dos primogênitos do rebanho. Do outro, a de Cáin, talvez um cesto de grãos e vegetais. Deus preferiu a primeira. Cáin matou quem a ofertou. Deus se indignou, e Cáin retrucou: "Sou eu o guardião do meu irmão?". É uma das frases mais citadas da Torá. Rabi Shimon bar Yochái ouve na frase uma acusação devolvida a Deus: "Tu o criaste. Guardá-lo era tarefa Tua. Podias ter me impedido." Deus pede contas ao ser humano, e o ser humano pede contas a Deus. É a pergunta de toda geração diante da violência, e a Torá a deixa aberta. Exilado, Cáin constrói a primeira cidade.
Na Torá aparecem ancestrais comuns e uma humanidade de um só tronco. Esses registros expressam um princípio importante da Torá, pois dele decorre que todas as pessoas são irmãs.
A parashá termina de forma sombria. Surgem os misteriosos "filhos de Deus" e os Nefilím. Deus então olha para o coração da humanidade, e não para seu tamanho ou sua fama, e se arrepende de tê-la criado. A última linha traz uma fresta de esperança: "Mas Nóach encontrou favor aos olhos de Deus."
Buber resume a parashá assim: a primeira narrativa termina com uma dupla bênção, sobre o ser humano e sobre o Shabat, e a segunda termina com uma dupla maldição, sobre o ser humano e sobre a terra. Entre as duas está a liberdade. Bereshít começa com "muito bom" e termina com Deus arrependido, e tudo o que acontece no meio é escolha humana. A haftará, de Yeshaiáhu (Isaías), aproveita esse gancho. O mesmo Deus que "criou os céus e os estendeu" chama um povo para ser "luz das nações". Criação e missão aparecem ali como partes da mesma história.
Títulos de A Torá: Um Comentário Moderno, de W. Gunther Plaut — UJR-AmLat.