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Saiba mais →Divisões narrativas das parashiot baseadas na obra A Torá: Um Comentário Moderno, de W. Gunther Plaut, gentilmente cedidas pela UJR-AmLat.
Para a psique judaica, as narrativas da Torá não são apenas histórias sobre um passado distante. Elas constituem um campo permanente de interpretação: seus personagens, acontecimentos e imagens continuam sendo relidos à luz de novas perguntas e experiências.
A mulher estéril que ri, chora ou reza. Sará, Rivká, Rachél e, fora da Torá, Chaná. O impossível que nasce da espera.
A esterilidade atravessa a Torá como um fio. As três matriarcas são estéreis, e é delas que nasce o filho da promessa. Sará ri quando ouve que terá um filho aos noventa anos. Rivká concebe depois de vinte anos, quando Yitschák implora por ela. Rachél grita a Yaacóv "dá-me filhos, senão morro", e ele responde com raiva: "estou no lugar de Deus?". Em cada caso o texto insiste que a linhagem não é natural. Ela precisa ser dada, e chega tarde, depois de a espera ter virado dor.
O fio continua no Tanach. A mãe de Shimshón recebe de um anjo o anúncio do filho. Chaná chora e reza em silêncio, mexendo só os lábios; o sacerdote Eli a toma por bêbada, e dessa reza a tradição tirou o modelo da Amidá. A sunamita de Elishá ganha um filho que não pediu. E Yeshaiáhu manda cantar: "alegra-te, ó estéril, que não deste à luz", porque Jerusalém, a cidade vazia, será mãe.
Ser estéril, nesses textos, é não conseguir passar ao estado de mãe, o que em geral quer dizer mãe de um menino. Chama a atenção que só duas mulheres do Tanach são descritas nascendo de uma mãe: Diná, que é violentada, e Miriám, que morre sem filhos. A Bíblia hebraica conta a maternidade quase sempre pelo lado da falta.
A pesquisadora brasileira Suzana Chwarts dedicou a esse tema sua tese de doutorado, A esterilidade na Bíblia hebraica, no Programa de Língua, Literatura e Cultura Judaicas da USP.
Numa leitura liberal, esse fio vale hoje para quem espera um filho que não vem, por qualquer caminho, e também para quem escolhe não ter. O riso de Sará e a reza de Chaná são as duas respostas que a Torá guarda para a espera.