Um ano, muitas festas.
O luto judaico (avelút) é um sistema de sabedoria rara: em vez de esperar que a pessoa enlutada "supere" ou "seja forte", a tradição desenha uma escada de degraus decrescentes, dando à dor um caminho no tempo. Entre a morte e o sepultamento, a aninut — o enlutado fica dispensado até das mitsvot, porque há dores que suspendem tudo. No enterro, a kriá: rasga-se a roupa, a ferida feita visível. Depois, os sete dias da shivá, em casa, cercado pela comunidade; os trinta do sheloshím, de retorno gradual; e o ano do Cadísh, a prece dita em pé, em minián, que não fala de morte — fala da grandeza de Deus, e devolve o enlutado, dia após dia, ao meio da comunidade.
Fechado o ano, a saudade ganha datas: o yahrzeit (aniversário do falecimento, com sua vela de 24 horas) e o Izcór das festas. A lógica do sistema inteiro é uma só: a dor é honrada, nunca negada — e também não é deixada sem margens. Não se volta à vida de uma vez; volta-se por degraus, com a comunidade segurando cada um deles.
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