Um ano, muitas festas.
A palavra be'er, poço, aparece dezenas de vezes na Torá — algo em torno de trinta ocorrências, muitas delas em nomes de lugar (Beer-Sheva, Beer-lachai-roi). Mais que geografia, o poço é um dos motivos-assinatura da narrativa: no deserto, onde a água é vida, ele é o ponto de encontro por excelência.
Três vezes a Torá repete de propósito a mesma cena: o noivado no poço. Em Chayei Sará, o servo de Avrahám reconhece Rivká porque ela dá de beber a ele e aos camelos. Em Vayetsé, Yaacóv encontra Rachél e, sozinho, rola a pedra da boca do poço. Em Shemot, Moshé defende as filhas de Yitró e conhece Tsiporá. O rapaz chega de longe, a moça tira água, e ali nasce uma aliança — e cada variação revela quem é cada personagem.
Mas o poço faz mais na Torá. É onde um anjo encontra Hagár e lhe mostra a fonte que salva Yishmaél — o Beer-lachai-roi, "o poço do Vivente que me vê". É objeto de disputa e depois de pacto entre Avrahám e Avimélech, em Beer-Sheva. É a obra-prima de Yitschák, o cavador que reabre os poços do pai e escava até achar a paz (Rechovót). E, em Chucát, o povo canta ao poço — "Sobe, ó poço!" —, que a tradição associa ao poço de Miriám, a fonte que teria acompanhado Israel pelo deserto enquanto ela viveu.
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