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Saiba mais →Divisões narrativas das parashiot baseadas na obra A Torá: Um Comentário Moderno, de W. Gunther Plaut, gentilmente cedidas pela UJR-AmLat.
Para a psique judaica, as narrativas da Torá não são apenas histórias sobre um passado distante. Elas constituem um campo permanente de interpretação: seus personagens, acontecimentos e imagens continuam sendo relidos à luz de novas perguntas e experiências.
Deus institui a brit com Avrahám aos 99 anos, junto com a mudança de seu nome: "este é o sinal da aliança entre mim e vós: todo macho entre vós será circuncidado" (). Yishmaél é circuncidado aos treze anos. Yitschák, ao oitavo dia, torna-se o primeiro a nascer dentro da aliança. Tazría fixa o oitavo dia como momento do rito, mesmo quando coincide com Shabat. Em Bo, a circuncisão também aparece como condição para participar do Pêssach.
A Torá, porém, não apresenta esse sinal apenas de maneira solene. Em três cenas, a circuncisão aparece associada a situações de violência, sexualidade, sangue e perigo. Os filhos de Yaacóv exigem a circuncisão dos homens de Shechém como condição para o casamento de Diná e, quando eles estão "doloridos", atacam a cidade. No caminho do Egito, Deus quer matar Moshé, e Tsiporá circuncida seu filho com uma pedra e pronuncia a enigmática expressão "noivo de sangue". Em Devarím, finalmente, o sinal corporal se transforma em metáfora: é preciso "circuncidar o prepúcio do coração".
Essa passagem do corpo para o interior é especialmente significativa. A aliança começa como uma marca física, mas a própria Torá transforma a circuncisão em linguagem para falar de uma transformação que já não acontece na carne. O que significa ter um coração "circuncidado"? O rito externo precisa ser acompanhado por alguma transformação subjetiva?
A psicanálise permite acrescentar outra camada a essa pergunta. A circuncisão incide sobre uma parte do corpo ligada à sexualidade e transforma o corpo masculino em lugar de uma inscrição cultural. Freud percebeu a força simbólica da circuncisão na constituição da identidade judaica, e uma leitura psicanalítica contemporânea pode perguntar o que acontece quando pertencimento, diferença, sexualidade e identidade são inscritos no corpo antes mesmo que o sujeito possa escolher ou compreender o significado desse gesto.
Nesse sentido, a brit pode ser lida como uma das formas pelas quais a cultura encontra o corpo. O sujeito nasce dentro de uma história que já existia antes dele e recebe uma marca corporal em um dos seus órgãos mais íntimos. Mais tarde, poderá aceitar, ressignificar, questionar ou até rejeitar os significados que recebeu. A interpretação pode mudar, mas a marca permanece.
A imagem da "circuncisão do coração" desloca a questão do que foi feito ao corpo para aquilo que o sujeito faz com aquilo que recebeu. A aliança deixa de ser apenas uma marca e passa a ser também uma relação que precisa ser elaborada.
A brit continua sendo uma das práticas mais amplamente observadas do judaísmo, inclusive entre pessoas pouco observantes. Ao mesmo tempo, comunidades judaicas liberais passaram a desenvolver formas de acolher meninas na aliança, como o brit bat, e há judeus e movimentos que questionam a circuncisão ou propõem cerimônias alternativas. A discussão contemporânea, portanto, não elimina a pergunta antiga: o que significa inscrever uma aliança no corpo de alguém?