Um ano, muitas festas.
A Torá quase não dá nome aos meses. Ela os conta: "o primeiro mês", "o sétimo mês", "o décimo primeiro mês". A contagem começa na primavera, no mês da saída do Egito, porque a primeira mitsvá dada ao povo ainda escravizado foi justamente esta: "este mês será para vós o começo dos meses" (15. Bo, Shemót 12:2). Gente livre é dona do seu tempo.
Só quatro meses têm nome próprio na Bíblia Hebraica antes do exílio, e são nomes cananeus, ligados ao clima e à lavoura: Aviv ("espiga verde", o primeiro mês, único nomeado na própria Torá), Ziv ("esplendor", o segundo), Etanim ("os perenes", o sétimo) e Bul (o oitavo) — os três últimos aparecem apenas no relato da construção do Templo de Shlomo, em I Melachím 6–8.
Os doze nomes que usamos hoje vieram da Babilônia, no século VI AEC, com a comunidade exilada: "os nomes dos meses subiram com eles da Babilônia", registra o Talmud Yerushálmi (Rosh haShaná 1:2). São palavras acádicas, algumas de origem suméria. Sete deles já aparecem nos livros mais tardios do Tanach (Nissan, Sivan, Elul, Kislev, Tevet, Shevat, Adar — em Estér, Ezrá, Nechemiá e Zecharyá). Os outros cinco (Tishrei, Chesvan, Iyar, Tamuz e Av) só entram por escrito na literatura rabínica. Um deles carrega o nome de um deus pagão; outro é apenas "oitavo mês" em acádico. Que o judaísmo conte seu tempo sagrado com nomes emprestados de quem o exilou diz muito sobre a maneira judaica de atravessar a história: levando junto o que serve.
Por número, a Torá cita só sete meses: o primeiro (Nissan, também chamado Aviv) e o sétimo (Tishrei) muitas vezes, o segundo (Iyar) algumas, e o terceiro (Sivan), o quinto (Av) e o décimo primeiro (Shevat) uma vez cada — além do oitavo (Chesvan) e do décimo (Tevet), que dependem de como se contam as datas do Dilúvio. Kislev, Adar, Tamuz e Elul não aparecem na Torá: são os meses das festas e jejuns pós-bíblicos, e as ligações famosas que têm com a Torá (Moshé morrendo em 7 de Adar, as tábuas quebradas em 17 de Tamuz, a subida ao Sinai em 1 de Elul) são tradição posterior. No Tanach inteiro, porém, nenhum mês falta: todos os doze aparecem por número nos Profetas e nos Escritos.
O ano tem 12 meses de 29 ou 30 dias e ganha um 13º (Adar I) sete vezes a cada dezenove anos, para que Pêssach continue caindo na primavera de Israel, como manda a Torá ("guarda o mês de Aviv", 47. Reé, Devarím 16:1). Chesvan e Kislev variam entre 29 e 30 dias para ajustar o comprimento do ano.
A Mishná (Rosh haShaná 1:1) conta quatro anos novos: 1 de Nissan (para os reis e a ordem das festas), 1 de Elul (para os animais), 1 de Tishrei (para os anos, a shmitá e o yovél) e 15 de Shevat (para as árvores). Um ano com quatro começos é um ano que sabe que nem tudo recomeça ao mesmo tempo.
As datas do relato de Nóach ("no segundo mês, no dia 17"; "no sétimo mês, no dia 17"; "no décimo mês"; "no primeiro mês, dia 1") são as únicas datas numeradas da Torá anteriores ao Êxodo, e não se sabe de qual mês elas contam. O Talmud (Rosh haShaná 11b) registra a divergência: para Rabi Eliézer o mundo foi criado em Tishrei e o "segundo mês" é Chesvan; para Rabi Yehoshúa, criado em Nissan, e o "segundo mês" é Iyar. Nas páginas abaixo, as datas do Dilúvio aparecem nos dois meses possíveis, sempre com esta ressalva.
O calendário judaico oscila cerca de um mês em relação ao gregoriano; por isso cada página diz "entre" dois meses civis. Israel fica no hemisfério norte, com clima mediterrâneo: chove de outubro a abril, não chove de maio a setembro. O Brasil vive a estação oposta — e é por isso que, para quem celebra aqui, Pêssach chega no outono, Sucót na primavera e Tu biShvát no auge do verão. Essa inversão é parte da experiência judaica brasileira, e vale a pena olhar para ela sem tentar apagá-la.
Sete vezes a cada dezenove anos o ano tem treze meses. O mês acrescentado é Adar I (30 dias), e o Adar "de sempre" passa a chamar-se Adar II (29 dias) — é nele que caem Purím, Taanít Estér, os Shabatot especiais e o yahrzeit tradicional de Moshé. Em Adar I fica apenas o Purím Catán (14 de Adar I), um dia sem rituais, mas com a alegria do mês e sem tachanún.
O acréscimo existe por causa de um único versículo: "guarda o mês de Aviv e celebra Pêssach" (47. Reé, Devarím 16:1). Pêssach precisa cair na primavera de Israel — e como doze meses lunares somam onze dias a menos que o ano solar, sem o mês extra a festa recuaria pelo calendário até chegar ao inverno, como acontece com o Ramadã. O 13º mês é o que mantém a Torá e a terra sincronizadas.
O nome tradicional do ano bissexto é shaná meubéret, "ano grávido". No ciclo de 19 anos (que a Babilônia e a Grécia também conheciam), os anos "grávidos" são o 3º, 6º, 8º, 11º, 14º, 17º e 19º. O ano 5787 (2026–2027) é o 11º do ciclo: é bissexto, com Adar I e Adar II — e é por isso que Pêssach de 2027 cai só em 22 de abril. Quem nasceu em Adar comemora em Adar II; quem tem yahrzeit em Adar tem, na prática ashkenazita, os dois Adares — a tradição preferiu lembrar duas vezes a esquecer uma.
O conversor do aplicativo calcula qualquer data, para a frente e para trás, com a aritmética tradicional do calendário judaico (o molad e as regras de adiamento), verificada contra uma implementação independente para todos os anos de 4000 a 7000 do calendário hebraico. Para datas anteriores a outubro de 1582, porém, o app converte usando o calendário gregoriano "estendido para trás" (o chamado gregoriano proléptico), como fazem o Hebcal e todos os conversores modernos. Naquela época, as datas civis eram registradas no calendário juliano, que difere do gregoriano em vários dias. Se alguém precisar converter a data de um documento medieval ou antigo, é preciso um passo a mais: converter primeiro do juliano para o gregoriano, e só então para o calendário hebraico. Para o uso real do app — nascimentos, yahrzeits, datas do século XIX em diante — a conversão é exata.
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