Um ano, muitas festas.
Nascida em Lisboa (1510) numa família de cristãos-novos, Beatriz de Luna herdou jovem um dos maiores impérios comerciais da Europa — e o transformou numa operação de resgate: sua rede de agentes e rotas tirou centenas de conversos do alcance da Inquisição portuguesa e espanhola, de Antuérpia a Veneza, de Ferrara a Constantinopla, cidade onde pôde enfim viver abertamente como judia, sob o nome que escolheu: Gracia Nasi. Quando a Inquisição queimou judeus no porto papal de Ancona, organizou um boicote comercial ao porto — talvez a primeira ação econômica coordenada da história judaica contra um perseguidor.
Fundou sinagogas, sustentou estudiosos, imprimiu a "Bíblia de Ferrara" em ladino para os conversos que voltavam, e chegou a arrendar Tibério, na Galileia, sonhando um refúgio na terra — um proto-sionismo quatro séculos antes do nome. O mundo judaico a chamava apenas de "a Senhora" (haGvirá). Falava a nossa língua: a mulher mais poderosa do judaísmo do século XVI pensava em português.
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