Um ano, muitas festas.
Figura de carisma raro — sempre de gravata colorida, trânsito fácil entre pessoas comuns, palácios e programas de televisão —, o rabino Henry Sobel (1944–2019) tornou-se uma das vozes religiosas mais conhecidas do Brasil e um artesão incansável do diálogo inter-religioso. Mas seu gesto decisivo veio em 1975, diante da morte do jornalista Vladimir Herzog nos porões da ditadura, apresentada oficialmente como suicídio, Sobel recusou a versão e determinou que Herzog fosse sepultado no centro do cemitério, e não na ala reservada aos suicidas. Sem discurso inflamado, apenas com um enterro, disse ao país que o Estado mentia. Um ato corajoso da resistência à ditadura.
Em Shemót, as parteiras Shifrá e Puá, que praticam a primeira desobediência civil da história bíblica, também seguem mais a Deus do que a um ditador. E em Chayéi Sará, Avrahám compra a caverna de Machpelá para sepultar Sará com dignidade. Sobel fez as duas coisas de uma vez: desobedeceu ao Paró de seu tempo por meio de um sepultamento digno, transformando o kevód hamét, a honra devida aos mortos, em ato público de verdade.
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