Em Bereshít, a rivalidade entre irmãos se repete quatro vezes. Em todas há um pai que prefere um filho. Mas de uma história para a outra muda quem provoca a cisão, o que acontece com a bênção e como os irmãos conseguem, ou não, voltar a se olhar. O pai aparece primeiro como a origem da rivalidade e, aos poucos, como aquilo que precisa ser ultrapassado para que os irmãos se reencontrem.
Cáin e Hével
Deus prefere a oferta de Hével, e não diz por quê. A diferença entre os irmãos é decidida por uma instância acima de qualquer pai, e por isso não há com quem negociar. Cáin mata o irmão. Quando Deus pergunta por Hével, ele nega a própria fraternidade: "Sou eu o guardião do meu irmão?". Não há elaboração possível da rivalidade. A primeira história termina em assassinato.
Yitschák e Yishmaél
Aqui a separação vem de dentro da casa. É Sará quem exige que Hagár e Yishmaél sejam mandados embora, e é Avrahám quem obedece, sofrendo, e deixa tudo o que tem para Yitschák. Pai e mãe produzem a cisão juntos. Enquanto Avrahám vive, os irmãos não têm relação nenhuma. Eles só se reúnem numa cena: para enterrar o pai, lado a lado, na caverna de Machpelá. O reencontro dos irmãos coincide com o fim da autoridade que os separou.
Yaacóv e Essáv
Yitschák prefere Essáv, e Rivká prefere Yaacóv. A rivalidade nasce da preferência do pai, mas quem provoca a cisão é a mãe: Rivká arma o disfarce com que Yaacóv toma a bênção destinada a Essáv. Pela primeira vez, preferência e bênção se separam. Essáv continua o preferido do pai, mas sem a bênção. Yaacóv tem a bênção, mas não o pai, e precisa fugir. E o fugitivo também paga um preço: vinte anos trabalhando para Laván, quase como escravo.
É nessa ambivalência que a reconciliação se torna possível. Na volta, é Essáv, o preferido do pai, o mais forte e sem bênção, quem corre ao encontro de Yaacóv, o preterido, o mais fraco e abençoado, e o abraça e o beija, e os dois choram. Pela primeira vez, o preferido perdoa. Os irmãos começam a se reconhecer como irmãos fora da disputa pelo lugar diante do pai.
Yosséf e seus irmãos
Yaacóv, agora Israel, repete o erro do próprio pai: prefere Yosséf, o filho de Rachél, e lhe dá uma túnica especial. Duas coisas são novas. A rivalidade já não é entre um par, e sim entre um irmão e um grupo inteiro. E não há mãe: Rachél morreu, e ninguém arma a cisão pelos irmãos. Eles mesmos o vendem como escravo.
A solução também é nova. Yosséf, como Yaacóv, cai numa condição subalterna e se reergue pelo trabalho, até ser validado pela maior autoridade da terra, o faraó. Ele ocupa, assim, uma posição de pai diante dos irmãos, e é dessa posição que os põe à prova. O que ele descobre é que Yehudá, o irmão que havia proposto vendê-lo, agora se oferece como escravo para proteger Binyamín, o novo preferido do pai. O rival virou guardião. Yosséf chora e se revela: "Eu sou Yosséf, vosso irmão". E perdoa. Pela primeira vez, a rivalidade é resolvida pelos próprios irmãos, com o pai vivo, e sem que a preferência precise desaparecer.
O que muda de uma história para a outra
- Quem separa os irmãos: Deus; depois pai e mãe; depois o pai prefere e a mãe age; por fim, os próprios irmãos.
- A bênção: no começo há uma só, e ganhar significa tirar do outro. Com Yaacóv e Essáv, bênção e preferência se separam. No fim, há bênção para todos.
- A saída: nenhuma; depois só quando o pai morre; depois o perdão do preferido; por fim, um irmão que ocupa o lugar do pai e outro que protege o preferido.
O fim do ciclo
Bereshít começa com um irmão que mata o outro e termina com um irmão que perdoa. No leito de morte, Yaacóv abençoa os doze filhos, e o texto faz questão de dizer que abençoou cada um "segundo a sua bênção". Algumas são duras, como as de Reuvén, Shim'ón e Leví, mas pela primeira vez ninguém fica de fora: cada um recebe a bênção por ser quem é.
Mesmo aí, a velha preferência reaparece uma última vez: Yaacóv cruza as mãos e põe a direita sobre Efráim, o mais novo, e não sobre Menashé. Mas Yosséf não protesta, e Menashé não se vinga. A bênção já não precisa ser tirada de alguém.
Depois de Bereshít, a Torá deixa de contar a história de irmãos que disputam o pai. Moshé, Aharón e Miriám conduzem o povo juntos. Têm seus atritos, mas nenhum precisa ser apagado para o outro existir.