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Saiba mais →Divisões narrativas das parashiot baseadas na obra A Torá: Um Comentário Moderno, de W. Gunther Plaut, gentilmente cedidas pela UJR-AmLat.
Para a psique judaica, as narrativas da Torá não são apenas histórias sobre um passado distante. Elas constituem um campo permanente de interpretação: seus personagens, acontecimentos e imagens continuam sendo relidos à luz de novas perguntas e experiências.
"Não andarás como mexeriqueiro entre teu povo". A Torá trata a palavra com seriedade, e daí desenvolveu-se uma ética do discurso: lashón hará é falar mal de alguém mesmo quando é verdade (a calúnia, mentirosa, é ainda pior). O exemplo clássico é Miriám, atingida por tsaraat após falar contra Moshé.
Porém, o próprio texto guarda um detalhe incômodo: Aharón falou junto, e só ela foi punida.
E aqui a leitura feminista faz sua pergunta: quem define o que é fofoca? A acusação de lashón hará costuma aparecer justamente quando a fala ameaça o poder: professoras que denunciam salários roubados ouvem que estão "difamando a escola". As redes de aviso entre mulheres, que protegem umas às outras quando as instituições falham, são chamadas de mexerico.
Mas a própria halachá dá uma saída: a lashón hará leto'élet. Esta fala negativa pode, às vezes, ser obrigatória: avisar de um perigo, proteger de um dano, denunciar uma injustiça. Não por acaso, "não ficarás parado diante do sangue do teu próximo" divide o mesmo versículo com a proibição do mexerico.
Numa era de redes sociais, a ética permanece. Ao mesmo tempo, é importante perguntar: estamos gritando "lashón hará" para proteger a dignidade de alguém ou o poder de alguém?