Um ano, muitas festas.
A Torá se estrutura por toledót ("gerações"), com listas de quem gerou quem. Nessas listas consta o nascimento de cerca de 105 homens, narrados explicitamente com o verbo י-ל-ד (vatéled, "deu à luz"; yalad/holíd, "gerou"; yulad, "nasceu-lhe").
No caso das mulheres, são apenas quatro: Rivká, Diná, Yochéved e Miriám.
Os nascimentos de Rivká e Diná são apresentados em Bereshít (22:23 e 30:21). Eles representam situações opostas de consentimento para o sexo. À Rivká é perguntado se ela quer ir com Yitschák, e ela consente, indo por sua própria vontade. À Diná, sua neta, nada é perguntado: ela é violada, tomada sem consentir.
Diná é a única mulher da Torá que faz o movimento gratuito de ir para o mundo, por curiosidade e sociabilidade, e a única que sai para buscar outras mulheres. Ela sai para ver, porém rapidamente é transformada de sujeito a objeto. Sua voz a respeito do que aconteceu nunca é ouvida.
Já Yochéved e Miriám, mãe e filha, são o único caso em que a genealogia feminina aparece em um único versículo (Bamidbár 26:59). Os nascimentos são registrados tardiamente, como se a Torá se lembrasse só depois que as mulheres que salvaram Moshé também nasceram um dia.
No caso delas, ambas atuaram junto às águas que se movem — o rio, o leite do seio, o mar, o poço de Miriám — para libertar o povo da estagnação da escravidão do Egito. Deixar o novo fluir até onde ele precisa chegar, nutri-lo do próprio peito, dar o ritmo ao canto que eleva a confiança de um povo oprimido após cruzar a imensidão do mar e garantir uma vitalidade fresca que jorra todos os dias.
Do consentimento sobre o próprio corpo ao como usar o fluir das águas para sair da estagnação, as quatro mulheres ganharam posição de destaque na Torá.
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