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Saiba mais →Divisões narrativas das parashiot baseadas na obra A Torá: Um Comentário Moderno, de W. Gunther Plaut, gentilmente cedidas pela UJR-AmLat.
Para a psique judaica, as narrativas da Torá não são apenas histórias sobre um passado distante. Elas constituem um campo permanente de interpretação: seus personagens, acontecimentos e imagens continuam sendo relidos à luz de novas perguntas e experiências.
Se você quiser saber quando é Rosh Chódesh, olhe para o céu à noite. Rosh Chódesh significa "cabeça do mês", que é quando a lua se renova. É o primeiro dia de cada mês judaico (chódesh, "mês", e chadásh, "novo").
Hoje à noite, se o céu estiver limpo, procure a lua:
Aqui no Brasil vale o "C de crescente, D de decrescente". No hemisfério norte, em Israel, é o contrário. No nordeste do Brasil, a lua nova muitas vezes aparece deitada, como um sorriso ou um barquinho.
Como a lua leva 29 dias e meio para dar a volta, os meses judaicos podem ter 29 ou 30 dias. O calendário fixo de hoje também pode ficar um dia à frente ou atrás do que se vê no céu. Mesmo assim, a regra geral vale: a lua cheia cai no meio do mês e o primeiro fio de luz marca o começo.
"Este mês será para vocês o começo dos meses" (). A primeira mitsvá dada ao povo, ainda no Egito e antes mesmo da saída, foi marcar o tempo. Talvez seja porque gente escravizada não é dona de suas horas, e gente livre é. A liberdade começa com um calendário próprio.
Durante séculos, o mês só começava quando alguém via a lua. Duas testemunhas subiam a Jerusalém e o Sanhedrín as interrogava. Um dos sábios tinha até desenhos das fases da lua na parede, para perguntar "era assim ou assim?". Aceito o testemunho, o tribunal proclamava: "Mecudásh!", "está consagrado!". A notícia seguia por fogueiras acesas de monte em monte, e depois por mensageiros.
As comunidades distantes nem sempre recebiam o aviso a tempo. Na dúvida, guardavam as festas por dois dias. Essa é a origem do segundo dia de Yom Tov na diáspora. O movimento reformista em geral voltou a observar um dia só, como em Israel, porque hoje o calendário é calculado e não há mais dúvida. O calendário fixo é atribuído a Hilél II, no século IV.
Há um detalhe teológico nisso tudo. O Shabat vem de Deus, inscrito na Criação, e chega de sete em sete dias com ou sem nós. O mês precisava de gente olhando para o céu. Por isso a tradição entende que as festas são santificadas pela comunidade, já que era ela quem declarava o mês.
Rosh Chódesh é uma meia-festa. Trabalha-se normalmente, mas o dia tem marcas próprias:
No Shabat anterior, o Shabat Mevarchím, a comunidade anuncia e abençoa o mês que vem, pedindo vida, paz, alegria e sustento. Nas noites de lua crescente, há quem saia para o Kidúsh Levaná, a bênção da lua, feita ao ar livre, olhando para ela.
Nos tempos bíblicos era dia de banquete. É numa véspera de Rosh Chódesh que Yonatán avisa Davíd: "amanhã é lua nova, e vão notar teu lugar vazio" (). Essa é a haftará lida quando Rosh Chódesh cai no domingo.
Uma curiosidade: Rosh haShaná é a única festa que começa num Rosh Chódesh, em 1º de Tishrei. É a festa da lua escondida. O Salmo 81 fala em tocar o shofár "no dia em que a lua se cobre".
Um midrásh conta que, quando o povo pediu ouro para o Éguel haZaháv, as mulheres se recusaram a entregar seus brincos. Como recompensa, receberam Rosh Chódesh como dia delas. Comentaristas medievais já registram o costume de as mulheres descansarem do trabalho nesse dia.
O costume ficou adormecido por séculos e renasceu nos anos 1970. Feministas judias nos Estados Unidos criaram os grupos de Rosh Chódesh, encontros mensais de estudo, reza, canto e criação de novos rituais. A lua, que mingua e sempre volta, virou símbolo de renovação e dos ciclos do corpo e da vida. Desde 1988, as Neshót haKótel (Mulheres do Muro) se reúnem a cada Rosh Chódesh para rezar em voz alta, com talít e Torá, diante do Kótel. Essa é uma luta que o movimento reformista acompanha de perto.
Outro midrásh alimenta essa leitura. No começo, sol e lua eram do mesmo tamanho. A lua reclamou, e Deus a diminuiu. Depois Deus se arrependeu e pediu que, a cada Rosh Chódesh, se trouxesse uma oferta de expiação "por Mim, por ter diminuído a lua". Os profetas prometem que um dia "a luz da lua será como a luz do sol". Muita gente lê nesse midrásh uma parábola sobre tudo o que foi diminuído sem merecer e sobre a reparação que virá.
Hoje, muitas comunidades progressistas celebram Rosh Chódesh em círculos abertos a pessoas de todos os gêneros, sem perder de vista que foram as mulheres que mantiveram essa tradição viva.