Um ano, muitas festas.
O rolo. Os cinco livros de Moshé copiados à mão em pergaminho, sem vogais, sem pontuação e sem números de capítulo, como há dois mil anos. É o objeto mais precioso de uma sinagoga e a razão de ela existir. Quando a arca se abre, todo mundo se levanta.
Se cai no chão, a comunidade jejua, ou compensa com estudo e tsedaká. Quando um rolo já não pode ser consertado, ele é passúl, inválido, e não vai para o lixo. Vai para a guenizá e depois é enterrado, com honras, como uma pessoa.
Como os rolos de Torá gastos são enterrados, quase nenhum sobreviveu. O mais antigo completo que existe é o de Bolonha, escrito entre 1155 e 1225. Ele ficou mais de um século na biblioteca da universidade, catalogado por engano como sendo do século XVII, até que um professor de hebraico reconheceu a escrita. Há fragmentos mais antigos, e os grandes códices massoréticos (Alepo e Leningrado) são anteriores, mas são livros, não rolos. O texto, porém, é o mesmo. O rolo que se lê hoje em São Paulo diz o que dizia o de Bolonha.
O pergaminho (cláf) é feito de um animal cashér, em geral vaca, cabra ou carneiro. Um rolo tem cerca de 65 folhas, costuradas com tendão de animal, o guid. A tinta é preta, feita à mão, e a pena é de ave. Nada de metal toca o pergaminho. São 245 colunas e pouco mais de 304 mil letras, enroladas em dois cabos de madeira chamados atsê chayím, "árvores da vida".
Quem escreve o Sêfer Torá é o sofêr (ou a soféret). Há cerca de duas mil regras a observar. Cada palavra é dita em voz alta antes de ser escrita, um único erro pode inutilizar a folha, e o Nome de Deus só é grafado com preparação especial. Não se escreve de memória, e sim copiando de um modelo. Cada letra precisa estar inteira e sem tocar na vizinha. A tradição vê nisso uma imagem do povo: se uma única letra falta, o rolo inteiro não vale.
A Torá é lida às segundas e quintas de manhã, no Shabat de manhã e à tarde, em Rosh Chódesh, nas festas e nos jejuns. O rolo sai do Arón haCódesh, a arca, em procissão e é lido. Após a leitura, é erguido aberto para todos verem as colunas (hagbahá), é enrolado e, por fim, vestido (guelilá) antes de voltar para a arca.
A arca também se abre em momentos de intensidade, mesmo sem leitura: no Col Nidrê, quando os rolos saem para receber o voto; no Avínu Malkênu; na Neilá de Yom Kipúr; no Alêinu das Grandes Festas, quando a comunidade se prostra; e nas sete voltas de Simchát Torá, quando os rolos dançam nos braços das pessoas.
Durante séculos só homens escreveram. A proibição era talmúdica, e começou a ser questionada na virada do século XXI. Em 2010 foi concluída a primeira Torá escrita por um grupo de seis mulheres, o Women's Torah Project, e uma delas era brasileira.
Rachel Reichhardt, soféret desde 2004, tornou-se a primeira mulher do Brasil e da América Latina a escrever uma Torá inteira, num projeto da Comunidade Shalom, comunidade igualitária de São Paulo. O rolo levou sete anos e foi concluído em 2 de novembro de 2025, numa cerimônia em que ela escreveu as últimas letras diante da comunidade e o Sêfer entrou na arca. É o oitavo no mundo escrito integralmente por uma única mulher.
O rabino da Shalom chamou o projeto de gesto de reparação. Uma Torá que sempre foi lida por todas as pessoas passou a ser escrita por elas também.
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