Um ano, muitas festas.
Éle toledót, "estas são as gerações" ou "estas são as linhagens", é uma das fórmulas que estruturam o livro de Bereshít. A palavra toledót vem da raiz י־ל־ד (y-l-d), ligada a gerar e dar à luz, e pode ser entendida como aquilo que é gerado, aquilo que nasce de alguém ou de alguma coisa.
É a espinha dorsal do livro de Bereshít, aparecendo pela primeira vez, de forma surpreendente, em Bereshít 2:4: "estas são as gerações dos céus e da terra".
A partir daí, a expressão retorna em momentos decisivos e inaugura novas etapas da narrativa.
As "gerações", para além de listas genealógicas, indicam aquilo que nasce de uma pessoa, de uma família ou de uma história e, portanto, marcam a passagem de uma geração para aquilo que dela se desdobra.
O Chumash Plaut divide Bereshít em capítulos dessa forma. As "gerações dos céus e da terra" são aquilo que nasce da criação: o Éden, os primeiros humanos, Cáin e Hével, a expansão da humanidade, Nóach e, depois, Babel.
As "gerações de Térach" conduzem àquilo que nasce de sua linhagem: Avrahám e sua história com Sará. As "gerações de Yitschák" levam a Yaacóv e Essáv, os gêmeos que encarnam uma das grandes rivalidades de Bereshít.
Por fim, as "gerações de Yaacóv" conduzem à história de Yosséf e seus irmãos. Então, de certa forma, aquilo que Yaacóv gera é a própria narrativa de Shemót, que começa literalmente com a palavra "e".
A estrutura de listas geracionais encontra paralelos em tradições do antigo Oriente Próximo, especialmente nas listas mesopotâmicas de reis anteriores ao dilúvio. Também ali aparecem figuras fundadoras, associadas à origem de cidades, ofícios e formas de organização humana, culminando no personagem do dilúvio.
Mas, enquanto as tradições babilônicas organizavam o passado em torno de reis, frequentemente apresentados como seres extraordinários ou semidivinos e dotados de vidas enormes, a Torá organiza sua memória em torno de… pessoas. Ancestrais. Seres humanos com conflitos, desejos e falhas.
Há, portanto, um movimento de escala em Bereshít. A narrativa começa com o inumano (os céus e a terra), passa pela humanidade, concentra-se em Nóach, depois em Avrahám, Yitschák e Yaacóv, até chegar a uma família específica. É um movimento do universal ao particular, da origem do mundo à formação de uma linhagem que dará origem ao povo de Israel.
É também possível ler esse movimento psicologicamente. Aquilo que começa como uma história sobre a humanidade vai adquirindo contornos cada vez mais particulares, como se o universal precisasse encontrar uma forma concreta para continuar existindo. Bereshít pode ser lido, então, não apenas como a narrativa do surgimento de um povo, mas como uma narrativa sobre a maneira pela qual a identidade judaica emerge de uma história que, desde o início, pretende falar do humano.
Há ainda uma tensão interessante na própria palavra toledót para uma leitura mais progressista. As gerações são apresentadas a partir dos pais, mas a narrativa frequentemente mostra que são as mulheres que determinam por onde a linhagem seguirá. Sará decide o destino de Yishmaél e Yitschák. Rivká intervém na transmissão da bênção. Leá e Rachél estão no centro da formação da família de Yaacóv. E Tamár garante a continuidade da linhagem de Yehudá.
A genealogia pode nomear os pais, mas a narrativa não permite esquecer as mulheres que fazem a história avançar.
Toledót, no fim, traz a ideia de continuidade. Cada geração recebe uma história que não começou com ela e a entrega, inevitavelmente modificada, para quem vem depois.
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