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As 54 parashiot, livro a livro

Para a psique judaica, as narrativas da Torá não são apenas histórias sobre um passado distante. Elas constituem um campo permanente de interpretação: seus personagens, acontecimentos e imagens continuam sendo relidos à luz de novas perguntas e experiências.

Calendário

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Sincronização calendárica
Os meses hebraicos e os civis lado a lado, com as parashiot e as festas
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Ciclo da Parashá – —
as 54 parashiot · em destaque, o mês acima
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צְחוֹק
Tsechók
Riso

O riso mais famoso da Torá é o de uma mulher de 90 anos, escondida atrás da entrada de uma tenda. Sará ouve que terá um filho e ri "dentro de si" (). Antes dela, Avrahám já tinha rido da mesma promessa, com o rosto em terra (). Quando a criança nasce, o riso muda de sentido: "Deus me deu motivo de riso, e quem ouvir rirá comigo" (). O menino recebe o nome desse momento, Yitschák, "ele rirá". O segundo patriarca é o riso, e dele pouco se fala.

Quase todo o riso da Torá está em Bereshít, e a maior parte numa só parashá, Vayerá. Ali a mesma raiz, צחק, aparece em sentidos muito diferentes. Como o riso da esperança que volta à vida, o de Sará. Depois, o riso amargo diante da destruição: os genros de Lot acham que ele está brincando quando avisa que Sdom vai cair e morrem por não levá-lo a sério. E o riso ambíguo que leva à expulsão. Sará vê Yishmaél metsachék, palavra que pode significar "rindo", "brincando" ou "zombando" (). Dessa palavra difícil de traduzir resulta o exílio de Hagár e do filho.

Depois de Vayerá, a raiz aparece com outros sentidos. Pode indicar carinho de casal, quando Yitschák é visto metsachék com Rivká (), o único momento em que ele faz jus ao próprio nome. Pode indicar humilhação, na acusação da esposa de Potifár contra Yosséf (). A última ocorrência, fora de Bereshít, é a farra diante do Éguel haZaháv, o Bezerro de Ouro (). Depois disso, a palavra não volta mais na Torá.

É ainda em Vayerá que o tema chega ao limite. Aquele que Deus manda sacrificar é justamente aquele que ri: "toma teu filho, teu único, a quem amas, Yitschák". O que se pede a Avrahám é o próprio Riso, a alegria tardia e improvável, a que veio depois que toda esperança humana já tinha acabado. Avrahám se dispõe a entregá-lo. Diante dessa disposição, Deus poupa o Riso. Nessa leitura, o que Deus queria era a disponibilidade de Avrahám a sacrificar seu riso e sua alegria, e não o sacrifício em si.

Essa leitura é evidentemente uma interpretação; não há no texto hebraico desse trecho da Torá nada além da partícula contida no nome de Yitschák. Ela se soma à tradição que Plaut recolhe em sua coletânea sobre o riso de Sará. Segundo essa tradição, o começo do povo judeu é propositalmente "risível": um casal de idosos recebe a promessa de ter um filho. Por isso mesmo, é um povo que aprende a atravessar o deboche da história sem perder a capacidade de rir.

Séculos depois, o salmo descreve o retorno do exílio: "então nossa boca se encheu de riso" (). O Éshet Cháyil, que a tradição associa a Sará, diz: "ela ri do dia que virá" (). Nesses dois textos, o riso da mulher idosa atrás da tenda já se tornou confiança.

Ver na Torá

Aparece em
3. Lech Lechá4. Vayerá6. Toldót9. Vayéshev21. Ki TissáTehilímMishlei
Etimologia
Da raiz צ־ח־ק (ts-ch-k), rir — a mesma de Yitschák, "ele rirá", e de metsachék, que na Torá vai de brincar e acariciar a zombar.
Origem hebraica
: Rir, brincar, zombar.
Como em:Yitschák
Conexões
Raiz hebraica
צ־ח־ק
Conceitos relacionados
SaráRi "dentro de si" ao ouvir que terá um filho (); no nascimento, "quem ouvir rirá comigo"
AvrahámRi primeiro, com o rosto em terra, diante da mesma promessa ()
Yitschák"Ele rirá": o nome guarda o riso dos pais — e é o único momento em que ele faz jus a ele
AkedáO que Deus manda sacrificar é justamente aquele que ri: a alegria tardia e improvável
Sodoma e GomorraOs genros de Lot acham que ele está brincando ao avisar da destruição ()
LotAvisa os genros e não é levado a sério: o riso amargo diante da catástrofe
YishmaélSará o vê metsachék — rindo, brincando ou zombando ()
HagárDa palavra ambígua metsachék resulta o exílio dela e do filho
RivkáYitschák é visto metsachék com ela: aqui a raiz indica carinho de casal ()
YosséfA esposa de Potifár usa a mesma raiz para acusá-lo: o riso como humilhação ()
Bezerro de OuroA farra diante do bezerro (): a última ocorrência da raiz na Torá
4. VayeráA parashá que concentra quase todos os sentidos da raiz: esperança, deboche, ambiguidade
3. Lech LecháO primeiro riso: o de Avrahám, em
6. Toldót — Yitschák e Rivká
9. Vayéshev — a acusação contra Yosséf
21. Ki Tissá — o riso diante do Bezerro de Ouro
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