Um ano, muitas festas.
O riso mais famoso da Torá é o de uma mulher de 90 anos, escondida atrás da entrada de uma tenda. Sará ouve que terá um filho e ri "dentro de si" (Bereshít 18:12). Antes dela, Avrahám já tinha rido da mesma promessa, com o rosto em terra (Bereshít 17:17). Quando a criança nasce, o riso muda de sentido: "Deus me deu motivo de riso, e quem ouvir rirá comigo" (Bereshít 21:6). O menino recebe o nome desse momento, Yitschák, "ele rirá". O segundo patriarca é o riso, e dele pouco se fala.
Quase todo o riso da Torá está em Bereshít, e a maior parte numa só parashá, Vayerá. Ali a mesma raiz, צחק, aparece em sentidos muito diferentes. Como o riso da esperança que volta à vida, o de Sará. Depois, o riso amargo diante da destruição: os genros de Lot acham que ele está brincando quando avisa que Sdom vai cair e morrem por não levá-lo a sério. E o riso ambíguo que leva à expulsão. Sará vê Yishmaél metsachék, palavra que pode significar "rindo", "brincando" ou "zombando" (Bereshít 21:9). Dessa palavra difícil de traduzir resulta o exílio de Hagár e do filho.
Depois de Vayerá, a raiz aparece com outros sentidos. Pode indicar carinho de casal, quando Yitschák é visto metsachék com Rivká (Bereshít 26:8), o único momento em que ele faz jus ao próprio nome. Pode indicar humilhação, na acusação da esposa de Potifár contra Yosséf (Bereshít 39:14). A última ocorrência, fora de Bereshít, é a farra diante do Éguel haZaháv, o Bezerro de Ouro (Shemót 32:6). Depois disso, a palavra não volta mais na Torá.
É ainda em Vayerá que o tema chega ao limite. Aquele que Deus manda sacrificar é justamente aquele que ri: "toma teu filho, teu único, a quem amas, Yitschák". O que se pede a Avrahám é o próprio Riso, a alegria tardia e improvável, a que veio depois que toda esperança humana já tinha acabado. Avrahám se dispõe a entregá-lo. Diante dessa disposição, Deus poupa o Riso. Nessa leitura, o que Deus queria era a disponibilidade de Avrahám a sacrificar seu riso e sua alegria, e não o sacrifício em si.
Essa leitura é evidentemente uma interpretação; não há no texto hebraico desse trecho da Torá nada além da partícula contida no nome de Yitschák. Ela se soma à tradição que Plaut recolhe em sua coletânea sobre o riso de Sará. Segundo essa tradição, o começo do povo judeu é propositalmente "risível": um casal de idosos recebe a promessa de ter um filho. Por isso mesmo, é um povo que aprende a atravessar o deboche da história sem perder a capacidade de rir.
Séculos depois, o salmo descreve o retorno do exílio: "então nossa boca se encheu de riso" (Tehilím 126:2). O Éshet Cháyil, que a tradição associa a Sará, diz: "ela ri do dia que virá" (Mishlei 31:25). Nesses dois textos, o riso da mulher idosa atrás da tenda já se tornou confiança.
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